INDAGAÇÕES E OUTROS RITUAIS

 

Quinta-feira, Outubro 06, 2011
 
NOBEL
O Nobel de Literatura normalmente é legal para descobrir um autor completamente desconhecido antes do prêmio. Às vezes é uma boa descoberta, como o Orhan Pamuk, às vezes é alguém chato que ganhou sabe-se lá por quê.

(eu acho que no mundo ultra boring de hoje tem cota pra tudo. Então desconfio de prêmios dados a pessoas de países longínquos, envolvidos em guerra, perseguidos políticos, etc.)

Dessa vez ganhou um poeta, o que é bacana para valorizar o gênero. Num mundo em que a gente lê que tudo morreu (o conto morreu, a novela morreu, a crônica morreu), não seria absurdo tomar a poesia como algo anacrônico e falido. Na verdade, até acho que é mesmo, porque é o gênero com menos mercado (chutei essa) e, consequentemente, menos divulgação.

Mas tá ótimo. Deixa aí a poesia como caminho marginal do artista.

Até que ela leva um Nobel e volta ao mainstream.

Abaixo, um poema do Tomas Transformer Transtromer, traduzido por Sérgio Lopes e tirado do blog da Amélia, o delicioso Ao Longe os Barcos de Flores.

Quando desceu à rua

Quando desceu á rua, depois do encontro de amor
a neve redemoinhava no ar
quando desceu à rua
O Inverno tinha chegado,enquanto estiveram nas mãos um do outro
A noite brilhava,branca
Ele correu de alegria
Toda a cidade se inclinava para um lado ou para outro
Passavam sorrisos
Os transeuntes sorriam atrás de colarinhos engomados
Tudo respirava liberdade
Todos os pontos de interrogação começaram a entoar a existência de Deus
Ou , pelo menos, assim pensou


Uma música soltou-se
e correu a neve, em turbilhão
em longas passadas
a música e tudo erravam sobre a nota dó
uma bússola balanceante, na direcção de dó
uma hora mais alta que os tormentos
tudo era fácil, leve
E os outros sorriam atrás de colarinhos engomados

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