INDAGAÇÕES E OUTROS RITUAIS

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011
SOBRE LEITURAS
É, senhores. Estou escrevendo muito pouco mesmo. Em compensação, leio como se não houvesse amanhã.
Logo, se posso contribuir de alguma maneira com os poucos, fiéis e desavisados leitores que eu tenho, é indicando os livros que estou lendo e que merecem menção.
(sendo, na verdade, quase todos, porque eu tenho um feeling inacreditável pra livro, errando muito pouco. Modéstia à parte).
Dois deles, mais especificamente, chamaram a minha atenção nas últimas semanas. O primeiro é o "The Sense of an Ending", do Julian Barnes. O livro ganhou o Man Booker Prize, e é bom demais. Mesmo. Li rapidinho porque ele é curto e page turner, embora o enredo não tenha nada demais.
Tem uma espécie de resenha minha sobre ele aqui.
O outro livro é o "The Night Circus", da Erin Morgenstern. Ele conta a história de um circo diferente, misterioso, que na verdade serve apenas de local para uma competição entre dois jovens mágicos. Que são realmente mágicos.
A premissa é divertida é porque o normal é termos ilusionistas que fazem truques fingindo serem mágicas. Mas os personagens do livro fazem mágica fingindo para o público que elas não passam de truques.
A história traz bons romances (daqueles que fazem a gente torcer pelos amantes) e uma infinidade de descrições maravilhosas do "Cirque des Rêves". Acaba que o circo é um personagem em si próprio, a autora faz com que o leitor entre nele e percorra cada tenda com atenção.
O livro foi tão gostoso de ler, que nas últimas páginas percebi uma brincadeira solta da escritora e resolvi participar. Há uma despretensiosa menção ao email do novo dono do circo, e resolvi mandar uma mensagem. Qual não foi a minha surpresa a receber uma resposta logo em seguida! Claro, era uma resposta automática, mas tão bem pensada que nem dá pra reclamar.
Cereja no bolo.
Terça-feira, Dezembro 06, 2011
COBRANÇAS
Eu tenho me cobrado pra cacete nos últimos tempos. Tenho feito várias auto-análises das quais saio sempre insatisfeito, querendo mudar uma série de coisas e desconfiado de que na verdade não vou conseguir mudar nenhuma.
(às vezes, bem às vezes mesmo, tento acreditar na batida frase do Nietzsche, de que a gente tem que tomar cuidado para, ao matar nossos demônios, não acabar com o melhor que há em nós).
Vai daí que eu esbarrei na citação de um famoso psicanalista americano, Theodore Isaac Rubin, que disse o seguinte:
“I must learn to love the fool in me. The one who feels too much, talks too much, takes too many chances, wins sometimes and loses often, lacks self-control, loves and hates, hurts and gets hurt, promises and breaks promises, laughs and cries.”
(não sei se ele é um autor conceituado mesmo, o trecho parece tirado de livro de auto-ajuda, mas enfim.)
Agora vejam vocês. Eu tô puto comigo mesmo justamente por falar demais, por perder o auto-controle, por ferir os outros (ainda que, quase sempre, sem querer), e por aí vai. E por que diabos eu tenho que aprender a gostar desse eu que me aflige?
Acho até que devo ser menos impiedoso comigo mesmo, mas me recuso a sentar impávido na afirmação de que “esse é o meu jeito”.
Se bem que.
Vai que eu realmente aprendo a gostar do idiota dentro de mim?
Terça-feira, Novembro 08, 2011
SCAPEGOATING
Ontem assisti a um documentário espetacular da ESPN. Chama-se "Catching Hell", e tem no youtube, em 10 partes.
O documentário conta a história da tragédia pessoal de um torcedor durante uma partida de baseball nos EUA. Acho que mesmo quem nunca assistiu a uma partida do esporte já viu cenas em que a bola é rebatida para a arquibancada, fazendo os torcedores tentarem pegá-la. Muitos inclusive vão ao jogo com luvas, na esperança de conseguir um trofeu desses. Quando a bola sobe, é instintivo: todos a querem.
Aí entra a história. Em um jogo em Chicago, o rebatedor do time visitante manda a bola na direção da arquibancada. Um apanhador do time da casa corre desesperado para alcançá-la. Se ele conseguisse pegar a bola antes dela cair na torcida, eliminava o adversário e praticamente definia o jogo. Só que os torcedores, no afã de conquistar o trofeu, e usando o instinto de todo fanático por baseball, se atiraram em direção à bola. Um deles, Steve Bartman, desviou-a, praticamente a tirando da luva do jogador. Resultado: ponto para o time visitante.
Qual o problema nisso tudo? O Chicago Cubs estava há quase cem anos tentando ir para as finais do baseball. Se vencesse aquele jogo, estava dentro. E tudo estava funcionando perfeitamente bem, a torcida estava animada, o time estava confiante e liderando o placar. Contudo, após o lance polêmico, a coisa desandou. A torcida esfriou, os jogadores se desconcentraram, e os Cubs acabaram perdendo o jogo.
Detalhe: durante o jogo, alguns jogadores de Chicago cometeram erros grosseiros. E mais: ainda havia um último jogo, novamente naquela cidade, mas os Cubs perderam mais uma vez. Ou seja, Steve Bartman não causou o problema, de maneira nenhuma. Mas levou toda a culpa.
O documentário mostra as cenas durante o jogo, dos torcedores aos poucos se enfurecendo com o pobre rapaz. Ele, desolado, não consegue acreditar que havia acabado de prejudicar o time do qual era torcedor fanático. As manifestações de raiva vão aumentando à medida que o placar vai se invertendo, com coro de xingamentos e arremesso de objetos e cerveja. Pouco antes do fim, Steve Bartman é retirado pelos funcionários do estádio, como forma de garantir a sua segurança.
A repercussão do caso foi tão grande na imprensa, que a vida dele nunca mais foi a mesma. O fato se deu em 2003, e até hoje ele vive recluso, praticamente escondido. Vendo o documentário temos uma pena imensa do torcedor, uma sensação de injustiça. Principalmente, temos uma sensação de podia ser comigo. Podia ser eu a disputar aquela bola, e podia ser eu a xingá-lo no estádio.
Há um fato curioso ainda nessa história. Dizem que o Chicago Cubs foi amaldiçoado por um torcedor que foi impedido de levar sua cabra para o estádio (sério). É a famosa Maldição de Billy Goat. Durante o documentário, uma religiosa conta que usa o caso Steve Bartman em seus sermões para ilustrar como nós, seres humanos, temos a tendência de correr para imputar a alguém toda a responsabilidade pelos nossos infortúnios. E ela encontra uma referência bíblica para isso, na figura da Scapegoat (o nosso bode expiatório). Em um dia determinado, os judeus passavam todos os seus pecados para uma cabra, que era expulsa da cidade. Com esse gesto, simbolicamente, todos os pecados do povo saíam juntos, purificando-o.
A imagem é tão forte que em inglês scapegoat virou verbo. Não é à toa, já que em momentos extremos somos incapazes de lançar mão da autocrítica, preferindo depositar todos os pecados no corpo de uma só vítima (normalmente a mais frágil, mais indefesa), mandando-a pastar sozinha no deserto.
Segunda-feira, Novembro 07, 2011
LEITURAS
Como já cumpri 2/3 da minha meta de leitura do mês (na primeira semana ainda!), dei-me de presente a autorização para começar o 1Q84, do Murakami. Como é um livo gigantesco (1.000 páginas, fora o terceiro volume!), não posso incluir nas metas, sob pena de não ler mais nada.
Foi super divertido ler por uma hora e só chegar aos 3% (NOT!). O fato é que o livro é MUITO bom. Vai ser um bom companheiro pelos próximos meses.
Vai daí que lembrei de outra coisa nada a ver. No primeiro fim-de-semana que passei em Sugar Fields eu meio que não tinha nenhuma distração (sem internet e com Tv aberta, imaginem). Na verdade, nem sofá eu tinha. Eu ainda estava me adaptando a tantas mudanças na vida, e enfim, não era um período fácil.
Então no sábado comecei a ler "A Elegância do Ouriço", da Muriel Barbery, e isso salvou o meu final-de-semana. Fui reto do começo ao fim do livro, deitado nos meus colchonetes da Casa & Vídeo, e chorei em todas as partes certas. =)
Sexta-feira, Novembro 04, 2011
THE (NOT SO) GREAT GATSBY
Assim. Eu penso que se um livro vira clássico, é porque tem alguma coisa que marcou uma geração e/ou conseguiu se tornar atemporal. Logo, a obra mais famosa do F. Scott Fitzgerald é boa, eu que não alcancei.
Na minha mais que humilde opinião, não precisava ser uma novela, podia ter ficado num conto. Porque não tem lá muita história. Se a curva dramática fosse mais acentuada de repente eu teria achado mais interessante.
E outra, realmente tem passagens risíveis. Por exemplo: o autor em determinado momento quis criar uma confusão a partir de um acidente automobilístico. Para isso, fez os personagens trocarem de carro DO NADA, tipo, "vamos pra cidade?" "vamos, mas você vai no meu carro com a minha mulher e eu vou no seu" "Ok".
Oi?
Sei lá, fiquei meio decepcionado com o livro, no geral. Achei o final até interessante, com os personagens mostrando motivações críveis, mas esperava muito mais dele. Nota mental de ler outro, possivelmente "Tender is the night", pra ver se o problema foi com o romance ou com o autor.
Terça-feira, Novembro 01, 2011
The (not so) Great Gatsby
Estou exatamente na metade do livro, mas precisando reclamar.
(claro que ainda falta a outra metade, de modo que eu posso quebrar a cara lindamente. Mas essa é a graça.)
Eu comecei lendo achando que o Gatsby seria um bon vivant clássico, conquistador e fútil. E de fato só até agora já houve a descrição de umas três festonas em sua casa. Mas aí o negócio ficou meio esquisito.
(personagens ricos e fúteis legais são os de "Parque dos Cervos", do Norman Mailer)
O malandro se revela apaixonado por uma personagem. Até aí, ok, podia ser o contraponto humanizador do protagonista. Só que prestenção: ele teve um breve encontro com a mulher, e a enorme separação entre os dois foi de míseros cinco anos.
Ou seja, tá pagando uma paixão que não me convenceu como leitor. Mas piora.
Gatsby vai mostrar sua casa para a mulher. Entra no quarto, abre um armário cheio de camisas finas e começa a jogá-las na cama, perto da mulher. É tipo um chilique mesmo. Essa, por sua vez, começa a chorar porque nunca viu tantas camisas bonitas.
Sério.
Como estou lendo em inglês, às vezes fico com a esperança de estar entendendo tudo errado. O Fitzgerald usa umas metáforas sutis, e essa cena por exemplo pode ter sido outra coisa. Vai ver isso significa que o Gatsby não é feliz com a grana que tem porque o que ele quer mesmo é a mulher amada. E está querendo dizer que abre mão de tudo. E ela se emociona.
(resolvi reler o trecho. Volto à minha posição inicial. É apenas uma cena patética mesmo)
Enfim, faltam 50%. Tô aqui na expectativa pro Gatsby se revelar um bom filho-da-mãe até o fim do romance. Engravidar a mulher e depois a abandonar, fazer o narrador perder todo o dinheiro na bolsa, coisas assim.
Cadê o Oscar Wilde quando a gente precisa dele?
Quarta-feira, Outubro 26, 2011
GERAÇÃO ZERO... O QUÊ?
Se me pedirem hoje para citar um grande escritor brasileiro, acho que eu só sei responder com alguém da velha guarda, tipo o Rubem Fonseca (e mesmo assim sem saber se ele continua escrevendo com qualidade. Nunca se sabe).
A verdade é que eu ignoro a literatura nacional contemporânea. No entanto, tem uma pá de autores em língua portuguesa fazendo sucesso por aí, não preciso nem pensar muito: Mia Couto, Antonio Lobo Antunes, Miguel Souza Tavares.
O que eu acho: os escritores brasileiros são pretensiosos, preocupam-se em escrever livros sofisticados e elaborados na forma, na narrativa, mas são péssimos contadores de histórias. Justo o país de um Jorge Amado, de um Guimarães Rosa.
E como vivem numa panelinha eterna, na qual se retroalimentam de elogios, sequer percebem que ninguém os está lendo, que o leitor não sabem nem que eles existem.
Ah, mas o problema deve ser do leitor...
E o pior: GARANTO que tem muito autor bom por aí, mas que sem conseguir entrar no grupo fechado segue ainda mais desconhecido.
AMEI portanto ler esse texto, chamado "Geração Zero à Esquerda" (brincando com a expressão "Geração Zero Zero", que definiria os novos nomes da literatura nacional). Nele, o autor, Alex Sens Fuziy mostra sem medo de ser antipático como a nova literatura brasileira é pedante e vazia.
Paulada. Merecida.